Quando o menino Zé Cupido tocava em festinhas de igreja, casamentos e batizados ou até mesmo numa rádio comunitária em Jacareí no final dos anos 1940, com a sua aguda sanfona Todeschini 48, não imaginava que sua vida seria rodeada de alguns de seus ídolos.

Mas quando foi apresentado para Cascatinha e Inhana no Circo Estrela Dalva esse cenário começou a se desenhar na vida do menino.

Morando em São Paulo desde 1952, Zé Cupido, ao lado da esposa Josefa, conheceu a cantora de músicas portuguesas Irene Coelho, que tinha um restaurante com apresentações de música ao vivo e um programa na rádio 9 de Julho. Esse fato também ajudou o sanfoneiro de Quiririm a alçar novos voos.

Não tardou para que seu talento falasse mais alto, e o moço que só queria levar a vida com a música ainda em Jacareí, a partir de 1953, passasse a ser uma das atrações do programa “Sanfonas e Sanfoneiros” da Rádio Piratininga.

Mas foi a partir de 1957, quando a Era do Rádio já começava a sofrer concorrência da televisão, que sua vida passou a ser rodeada por alguns dos principais nomes da música.

Pelo seu incrível talento musical, fez acompanhamento de sanfona e harmônica em diversos shows e gravações de discos, com nomes como Tonico e Tinoco (em mais de 60 LPs), Teixeirinha e tantos outros. Aliás, difícil contar tantas canções da qual Zé Cupido fez parte. Ah, se aquela Hohnner de 8 baixos falasse, seriam tantas histórias para contar...

Um dos seus grandes ídolos, curiosamente com quem ele nunca tocou ou fez gravação, Luiz Gonzaga rendeu ao sanfoneiro de Quiririm grande amizade e alguns conselhos musicais, que fariam de Zé Cupido um músico completo, que também era um expert como bandolinista, violonista, violonista, cavaquista, baterista e ritmista com carteira registrada de músico desde 1962.

Pela admiração ao Rei do Baião, o Rei dos 8 Baixos também rendeu suas homenagens com gravações de discos próprios “Sucessos de Luiz Gonzaga Volume 1” e “Sucessos de Luiz Gonzaga – Volume 2”, pela gravadora Itamaraty.

Já nos anos 1980, conheceu Inezita Barroso ao começar a se apresentar no “Viola Minha Viola” desde os primeiros programas nos anos 1980, o que se manteve até os anos de 2012. Zé Cupido era músico frequente da atração, que era apresentada exclusivamente por Inezita desde 1990.

Já de volta a Jacareí, o que aconteceu em 1988, lá pelos anos 2000, Zé Cupido confessou um sonho ao amigo Freddy Mogentale, que não à toa era músico e também dono do bar do Freddy, local onde o sanfoneiro também se apresentava: queria conhecer Sivuca, o poeta do som, o multi-instrumentista paraibano.

Sivuca e Zé Cupido tinham tantos pontos em comum que talvez nem mesmo eles soubessem. A primeira coincidência era a idade, Sivuca nasceu em 1930, e Zé Cupido, em 1931.

Independentemente de problemas físicos, ambos encontraram na música a forma perfeita de se expressar, com prazer, com amor, com exatidão e com expertise. Ambos se destacaram como multi-instrumentistas, não havia música que não soubessem tocar. Talentos inegáveis e, para alguns, quase inalcançáveis.

Sivuca começou a tocar Sanfona aos 9 anos, assim como Zé Cupido. Só que enquanto Sivuca encantava o semiárido paraibano, Zé Cupido começou encantando o verde Vale do Paraíba, na bela Quiririm, em Taubaté, e depois outras cidades da região.

Além de tudo isso, as apresentações na rádio foram o estopim para alavancar a carreira do nordestino e do valeparaibano. E ambos estavam acostumados a acompanhar outros grandes astros ao longo de suas carreiras.

Freddy, que sempre foi integrado no meio musical e tinha grandes conhecimentos, inclusive abrigando o músico João Pacífico em seus últimos tempos em seu sítio em Guararema, era um grande amigo de Sivuca e guardou essa aspiração de Zé Cupido na memória. Um dia promoveria esse encontro.

Certo dia, Sivuca fez uma visita ao sítio de Guararema. E Freddy não perdeu a oportunidade: “Sivuca, tenho um amigo que quer te conhecer”.

Com Sivuca ao lado, Freddy bateu na casa de Zé Cupido, no Avareí, onde ele morava com a terceira esposa depois de ficar viúvo duas vezes. O próprio Zé Cupido atendeu e pela sua deficiência visual não percebeu que o ídolo estava à sua frente. Convidou a pequena comitiva de músicos para entrar.

Freddy entrou dizendo a Zé Cupido que tinha trazido alguém para que o sanfoneiro conhecesse, alguém que também dedilhava a sanfona tão bem quanto ele. Zé Cupido quis saber quem era. Quando soube, ficou nervoso, os habilidosos dedos tremeram, e nesta hora não conseguiu tocar.

Mas o momento foi histórico: a casa da Rua São Vitorino nunca presenciou tanto brilho junto, abrigava duas estrelas máximas do acordeon.

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Lucimara Nascimento
Jornalista