Quando o amigo Luiz Gonzaga concedeu a Zé Cupido um conselho sábio, ele soube ouvir muito bem e isso fez toda diferença em sua vida. E não poderia ser diferente, ouvir é prerrogativa de quem tem ouvido absoluto.

Certa vez, em uma entrevista concedida para a TV Câmara de Jacareí, Zé Cupido contou que já era conhecido nos programas de rádio e fazia parte do staff de músicos das gravações de nomes da música sertaneja, quando foi apresentado ao Rei do Baião, na Festa do Couro, por volta de 1960.

Pela desenvoltura que apresentava no acordeon ao tocar as canções do talentoso sanfoneiro do sertão de Pernambuco, Zé Cupido ganhou as atenções dele. Também pudera, fazia quase 10 anos que tocava as canções do Rei do Baião.

Anos depois, Luiz Gonzaga fez questão de ir à cantina onde Zé Cupido tocava nos intervalos de turnês dos astros das músicas sertanejas, especialmente para vê-lo. Em homenagem ao ídolo, Zé tocou a música “Asa Branca”. Ao final da canção, Luiz Gonzaga deu um conselho ao amigo, a quem já tinha elogiado pela interpretação de suas músicas: “Quando você tiver tocando e acompanhando, procura diminuir o som do acordeon, pra o pessoal ouvir o que você está cantando”, sábio que era, Zé Cupido ouviu a dica e seguiu.

Mas esse ouvido absoluto foi o que sempre impressionou os amigos. A começar do jovem Irineu Coelho, filho da cantora de músicas portuguesas Irene Coelho com quem o sanfoneiro de Quiririm gravou inúmeras músicas.

Era 1956 e o menino só aprendeu música com o método de Zé Cupido, que não utilizava de partituras, mas do ouvido aguçado para reconhecer as notas musicais.

Aos 13 anos, Irineu também não se adaptava às partituras, então quando Zé Cupido entrou na sua vida, tudo mudou. Duas vezes na semana, ele ia dar aulas ao menino, utilizando como o principal instrumento de educação musical a própria audição incrivelmente apurada. Essa metodologia influenciou o garoto, que depois optou pela carreira musical e virou tecladista, e nesta jornada chegou a ser músico fixo do cantor Altemar Dutra.

Muitos anos mais tarde, os amigos se admiravam não só do incrível senso espacial que o músico tinha como do ouvido absoluto que não deixava escapar nada. Sem nunca ter estudado em uma escola formal de música, Zé Cupido sabia desvendar todos os mistérios de todos os tipos de música.

Ritmos nunca foram problemas para ele. Certa vez, em turnê por Minas Gerais com o Quarteto Mantiqueira, chegou a tocar até mesmo músicas clássicas, americanas e francesas. Tudo muito distante de seu universo choro, sertanejo, de forró ou até mesmo das canções italianas e portuguesas, que tanto tocou ao longo da vida.

Ninguém sabia de onde vinha tanta inspiração para as notas tão rápidas e o som tão limpo. Parecia dom divino mesmo. O amigo Freddy Mogentale, que conheceu o sanfoneiro em 1993 em uma festa em homenagem ao sogro, chegou a dizer que Zé Cupido fazia uma orquestra em cada acorde da música.

Conforme palavras de outro músico e admirador confesso, Agnaldo Dias, o talento era tanto que essa cena ocorreu inúmeros vezes: em um grupo como o Choro da Terra, que tinha diversos músicos, tocando instrumentos muito diferentes, Zé Cupido sabia dizer exatamente qual era a corda que estava desafinada no trio de violões ou até o que está em desacordo com os outros instrumentos.

Por essa aptidão, os amigos costumavam perguntar para ele as notas de todos os sons, de todas as coisas. Certa vez, um sino tocou e falaram que o sino estava em afinação “tal”, Zé Cupido rebateu de pronto: “Não, o sino está Si Bemol!”. Como podia saber isso alguém que jamais estudou notas musicais de forma clássica? Só Zé Cupido mesmo!

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Lucimara Nascimento
Jornalista