O ano era o de 1931, primeiro da Era Vargas, que vivenciou dias conturbados, quando cresceu o populismo, as disputas políticas que resultaram na Revolução de 1932 e a modernidade no país.

Quarto filho entre sete irmãos, José Idelmiro Cupido nasceu em casa mesmo, próximo ao Natal, no dia 18 de dezembro, na bucólica Quiririm, o distrito de Taubaté que abrigava uma das estações da Estrada de Ferro Central do Brasil e foi um dos principais redutos da imigração italiana no Brasil, a partir de 1892, com a chegada da família Indiani.

O menino nasceu saudável, mas a mãe logo percebeu uma doença em seus olhos. Não se sabe se era a tal conjuntivite causada pela bactéria gonococo, que pode ser transmitida no momento do parto normal, ou qualquer outra doença oftálmica.

Uma medicação determinou o futuro de José Idelmiro. Um médico receitou um remédio para o pus que se formava nos olhos da criança, mas aparentemente uma dosagem errada de nitrato de prata produzida pelo farmacêutico pode ter sido a causa da cegueira parcial a partir dos 7 dias de vida.

Apenas em 1977, ficou definido a aplicação de nitrato de prata a 1% em cada um dos olhos dos recém-nascidos logo em sua primeira hora de nascimento, para evitar a doença que pode acometer 10% dos bebês e era a principal causa da cegueira infantil.

Certamente na época de José Idelmiro, a aplicação não ocorria tão logo ao nascimento e isso pode ter agravado o problema.

Ainda assim, o menino cresceu feliz, vendo um tímido brilho do sol e vultos das pessoas e das coisas, como os trens que conferiam uma melodia diferente e cadenciada à pequena Quiririm. Muitos anos depois, esse som tão eternamente presente em seus ouvidos eram imitados nas notas de sua sanfona.

Será que foram os sentidos apurados pela baixa visão um dos motivos para José Idelmiro descobrir a beleza da música, quando ganhou uma gaita aos 2 anos de idade?

Ele já estava acostumado a ver o mundo por meio das formas pouco definidas, mas aos 8 anos sua condição piorou. O olho direito, que era a único responsável pelos vultos que enxergava, começou a inchar e inchar, estourou e roubou do menino as poucas sombras e em troca ficou a escuridão total atrás de seus olhos.

Não dá para não lembrar da canção famosa “Assum Preto”, pássaro que no Ceará também se chama Cupido. Parafraseando Luiz Gonzaga, na lendária música que dizia: “...talvez por ignorância ou maldade da pior, furaram os olhos do assum preto pra ele assim “ai” cantar melhor”. E assim a música ganhou força na trajetória do menino de Quiririm.

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Lucimara Nascimento
Jornalista