O avô de Zé Cupido, por parte de pai, sempre dizia que se lamentava muito por não ter deixado o legado da música para os filhos. Nenhum tinha a mesma paixão dele, que desde 1904 integrava uma banda em Taubaté.

O filho caçula, Manoel da Rocha Cupido, nascido em 25 de setembro de 1902, sem querer veio a atender aos desejos do seu velho pai: foi Manoel, que anos mais tarde, ao se casar com a italianinha Maria Cleonice Andena, em Quiririm, colocaria no mundo José Idelmiro Cupido, que logo cedo revelou talento inegável para a música.

Ao se casarem, os pais de Zé Cupido traziam na mistura dos sangues português e italiano uma disposição por manter a música bem viva e perto na vida da família. A mãe, além de ser dada às cantorias, também adorava dançar aos ritmos dos seus ascendentes do além-mar, quando os amigos iam à sua casa para tocar diversos instrumentos.

Assim, entre as sombras dispersas de sua visão e a alegria trazida pelas reuniões familiares na casa de dona Cleonice e seu Neco (como seu Manoel era conhecido), a música sempre esteve presente na vida de Zé Cupido, e ganhou força em seu DNA quando ganhou uma gaita de boca aos 2 anos. O garoto, autodidata e talentoso, logo aprendeu não só a gaita, mas também o pandeiro.

Dona Maria Cleonice já tinha percebido a veia artística do seu quarto filho, quando ela ganhou a sanfona de 2 baixos em uma rifa e o menino, aos 9 anos, já estava totalmente mergulhado na escuridão da deficiência visual, mas iluminado pelo dom musical.

A mãe deu uma missão a ele: “A sanfona é sua, agora é com você!” O menino não fez corpo mole, em um mês aprendeu tudo o que tinha a aprender, como as animadas músicas de Carnaval que ouvia na rádio.

Essa missão era cumprida também em momentos simples e amorosos, quando a mãe se sentava à máquina de costura e começava a cantar. Dona Cleonice incentivava o filho a tocar a sanfona em duas carreiras e ensinava a ele modinhas italianas. Mal sabia o menino que essas cenas sempre estariam presentes em sua memória.
O pai, que trabalha na Central do Brasil em São José dos Campos, vinha apenas uma vez por semana para sua casa em Quiririm e se surpreendia com o talento do filho. Logo não havia nada mais a aprender com a sanfona de 2 baixos.

Foi quando o irmão do seu Neco, o tio Mario, incentivou que dona Maria Cleonice entregasse a Zé Cupido uma sanfona de 8 baixos, que pertencia ao pai do menino desde seu tempo de solteiro. Embora ele não tocasse nada, o instrumento estava lá à espera de mãos amigas.

Esse talento de Zé também foi determinante para a irmã Mira, que logo aprendeu a tocar latinhas para acompanhar o irmão nas aventuras musicais. Pouco mais nova que Zé, desde cedo, ela tinha consciência que teria que ser os “olhos” do irmão em sua jornada pela vida.

Essa parceria entre irmãos foi vitoriosa e providencial, especialmente quando as crianças perderam a mãe em maio de 1942.

A família inteira precisou se mudar para Taubaté e a dupla formada por Zé Cupido e Mira eram atração em bailes de família, como aniversários, casamentos e batizados, tocando todos os ritmos.

Ao lado do irmão, a música sempre esteve presente, e para acompanhá-lo, Mira aprendeu a tocar pandeiro. No futuro, essa parceria rendeu até a gravação de uma faixa em um LP de alumínio. Mas, de certa forma, o amor pelas reuniões familiares musicadas também envolveu todos os outros cinco irmãos: Maria Rosa, Tecla, Mutiel, Antônio e Pedro.

Mas ainda na infância, o pouco dinheiro que Mira e Zé Cupido conseguiam com as apresentações era muito importante para compor uma renda durante os difíceis primeiros anos da Era Vargas, ainda muito afetada pela crise de 1929.

Muitos anos depois, Zé Cupido fazia questão de incluir em seus shows as músicas que cantava com a mãe à beira da máquina de costura. Tantas recordações vinham à mente do sanfoneiro. Mas as grandes emoções que esses acordes traziam fizeram o músico eliminar por um tempo essas canções de sua playlist para não estimular ainda mais lembranças e saudades sem fim.

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Lucimara Nascimento
Jornalista