Bom humor, muita música e confidências nunca faltaram na convivência de Zé Cupido com o amigo Waldomiro Rangel. São tantas histórias em décadas para relembrar que muitas vezes os detalhes ficam perdidos nos confins da memória.

A amizade começou quase sem querer quando Waldomiro recebeu a sugestão de incluir uma apresentação de Zé Cupido para um show anual no Instituto São Rafael de Cegos, em Taubaté. A instituição, fundada em 1955, sempre teve a nobre função de fazer a inclusão dos deficientes visuais. Então, nada mais adequado do que a presença de Zé Cupido neste espaço.

Sabendo da condição de Zé Cupido, Rangel partiu para São Paulo para buscar o futuro amigo quando ele ainda morava no Edifício Mococa, na Av. Ipiranga, em São Paulo.

Também músico, Rangel não perdeu a oportunidade de estar sempre perto de Zé Cupido, tanto nos shows que organizava como na formação de um grupo musical em que Zé reinava na sanfona, e ele no violão. Também pudera os dois eram amantes mais do que declarados do choro.

Foram tantas viagens São Paulo, Taubaté e Tremembé, e depois, quando o amigo voltou a morar em Jacareí em 1988, Rangel também cumpria um ciclo de apresentações com Zé Cupido. Muito posteriormente, entre os anos de 2006 e 2010, essa parceria fazia do sanfoneiro um convidado sempre especial no programa que Rangel apresentava na TV Taubaté.

O acúmulo dessa quilometragem entre as cidades onde moravam os dois amigos só crescia com a passagem dos anos e a amizade só aumentou ao longo da vida do sanfoneiro. Foram tantas idas e vindas, que não dá nem para contar e a diversidade dos destinos e quantas histórias, conversas e confissões.

Rangel não cansa de lembrar-se bem de uma exaustiva viagem que fez com o amigo Zé Cupido a Brasília. Desta vez, a música não era a pauta, mas sim a aposentadoria do sanfoneiro de Quiririm.

Mas a viagem da qual o amigo não se esquece mesmo foi a que fez com Zé Cupido pelas cidades históricas mineiras e a capital Belo Horizonte, em 1999.

Em todas essas oportunidades, o cuidado do amigo era a tônica com o sanfoneiro de Quiririm. Rangel conduzia Zé com as mãos, e como se quisesse se tornar seus olhos, descrevia a ele belas cenas às quais Cupido não conseguia enxergar.

Além da música, companheira de todas as horas, Rangel também queria que Zé conhecesse mais que isso nesta viagem. Usou do tato apurado do amigo para cumprir essa tarefa: as mãos do sanfoneiro revelariam as formas.

Em Ouro Preto, Rangel descreveu a cidade que mais parecia ter parado no tempo, com seus casarios da época colonial e as obras do talentoso Aleijadinho. Quando um monumento inspirava mais sentimento, Rangel colocava as mãos de Zé Cupido sobre a obra, para que ele pudesse ver com os olhos da alma.
Foi dessa forma que Zé Cupido conheceu as belezas contidas no Museu dos Inconfidentes.

Em Mariana não foi diferente, quando violonista “mostrou” a Zé Cupido o Pelourinho. Zé sentiu com as mãos e assim conheceu aquela história.

Quando chegaram em Moeda, uma feliz coincidência fez Zé Cupido encontrar o amigo Gerardo, ex-integrante do grupo composto por deficientes visuais Os Titulares do Ritmo, que teve seu auge entre os anos 1950 e 1960 e chegou a gravar o sucesso “A Taça de Ouro é Nossa”. Zé também já tinha dividido o palco com Gerardo em outras apresentações.

Em Belo Horizonte, os amigos dividiram uma história engraçada. Ao chegarem em um restaurante, quando os donos ficaram sabendo que eram músicos pediu que tocassem. E com a beleza do som, o almoço saiu de graça para todos.

E foram tantos caminhos percorridos, tantas notas emitidas, tanto som tamborilando nos ouvidos e corações que o laço entre os dois ficou forte. Zé Cupido tinha em Rangel o amigo para todas as confidências, a divisão das alegrias e até a confissão de algumas frustrações.

A partida de Zé Cupido deixou em Rangel a certeza de uma amizade que não acaba com a morte, a saudade de um companheiro de todas as horas e a admiração pela alma boa, ingênua e feliz do amigo que deixou o mundo um pouquinho mais triste depois que foi embora em 28 de julho de 2013.

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Lucimara Nascimento
Jornalista